30/01/2009


Contribuição Bianca F. Nogueira                     www.comshalom.org

A beleza da V Conferência do Episcopado Latino-Americano

A V Conferência reflete a necessidade que nós, pastores, sentimos de nos reunir para escutar juntos, em atitude de discípulos, ao Senhor e Mestre, que nos fez seus irmãos e amigos, para que com Ele encontremos as respostas pastorais adequadas ao tempo presente», afirma um dos bispos encarregados pelo Papa de chefiar a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe (Aparecida, Brasil, 13 a 31 de maio).

Nesta entrevista especial a Zenit, o secretário-geral da V Conferência, Dom Andrés Stanovnik, O.F.M. Cap., bispo de Reconquista (Argentina) e secretário-geral do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), detalha o tema da V Conferência, explica como se desenvolverão os trabalhos no Santuário de Aparecida, antecipa informações sobre o Documento de Trabalho que os bispos utilizarão, entre outros assuntos.

--Iniciemos pelo tema da V Conferência, «discípulos e missionários de Jesus Cristo». Não seria um pouco abstrato?

--Dom Andrés: É um tema muito concreto, porque se refere ao sujeito, ou seja, a cada um em particular e a todos juntos: discípulos missionários e nossos povos. Trata-se da pessoa concreta, que está chamada a construir sua identidade na experiência do encontro com a pessoa viva de Jesus. E, por outro lado, estão nossos povos, aos quais está orientada a missão dos discípulos missionários para que tenham vida em Cristo. O Sínodo da América destacou essa experiência fundamental do cristão: o encontro com Jesus Cristo vivo. E desse encontro surge a missão.

A dinâmica das relações entre as pessoas responde a aspectos profundos da natureza humana. Jesus Cristo, ao assumi-la e redimi-la, outorgou-lhe beleza e transcendência. O autêntico encontro humano leva sempre à abertura e à missão. Por isso, o discípulo que se encontra com Jesus Cristo se transforma em discípulo missionário. Não pode existir um autêntico discípulo que não seja missionário, como tampouco pode o ser humano amadurecer se não se abre aos demais. O crente experimenta que sua condição humana se transforma e enriquece pelo encontro com Jesus Cristo vivo. O tema de Aparecida é um convite a viver a experiência desse encontro e abrir-se à missão.

O Santo Padre Bento XVI nos entregou o tema da V Conferência. A primeira parte do tema diz: «Discípulos e missionários de Jesus Cristo». É um forte chamado às Igrejas que peregrinam pela América Latina e pelo Caribe a encontrarem-se mais intensamente com Jesus Cristo. A Igreja, esposa de Cristo, está chamada, através do acontecimento da V Conferência, a encontrar-se mais com Ele. Nesse sentido, o encontro de Aparecida é um novo impulso do Espírito Santo à Igreja, para que se encontre mais com seu Senhor e, transformada por Ele, seja mais missionária. A Igreja não pode ser missionária se não é discípula, se não renova constantemente a atitude de colocar-se como discípula diante de seu Senhor e Mestre. Para que os discípulos e discípulas sejam verdadeiros missionários, devem voltar sempre aos pés do Mestre, para estar com Ele, aprender dele, e entrar em profunda amizade e comunhão de vida com Ele.

A missão se destaca na frase seguinte do tema de Aparecida: «para que nossos povos n’Ele tenham vida». Esta frase expressa a finalidade da Igreja: ela existe para a missão. Por isso, todo discípulo e discípula na Igreja está chamado a ser missionário. Daí também surge o motivo que reúne aos bispos na V Conferência, é a evangelização do continente em tempo atual.

Podemos recordar também que a V Conferência está em continuidade temática com as quatro Conferências anteriores. A anterior, celebrada em Santo Domingo [1992, ndr.], colocou um acento forte na pessoa de Jesus Cristo vivo e se perguntou como comunicá-lo às diversas culturas de nossos povos. Nesse sentido, a próxima Conferência se pergunta sobre a identidade e missão do sujeito que se encontra com Jesus Cristo, colocando a ênfase na missão: «para que tenham vida em Cristo». Este sujeito, discípulo e missionário, que cultiva sua identidade e missão em amizade e comunhão com Jesus Cristo, celebra e amadurece sua vocação na comunidade eclesial, comunidade de discípulos e discípulas, cuja ação está orientada à missão para a vida de nossos povos.

--Em uma sociedade quase sempre caracterizada pelo culto do objeto, do material, onde a solidariedade muitas vezes não é um valor e a antropologia cristã é rejeitada nos debates como algo que deve circunscrever-se ao âmbito religioso, falar de identidade do cristão se torna um desafio para esta V Conferência, não é mesmo?

--Dom Andrés: Este tempo de profundas mudanças, muitos o chamam de mudança de época, que nos envolve e afeta a todos, exige estar atento às identidades. É um forte desafio à identidade, vocação e missão da Igreja e de cada católico. Hoje necessitamos responder, com novas linguagens e sem perder a memória, o que entendemos por ser humano e por comunidade humana. Há quem sustente que a pessoa deve libertar-se de sua memória cultural e religiosa, para inventar-se a si mesmo de suas próprias fantasias. No fundo, a expressão religiosa poderia ser tolerada no âmbito do privado e subjetivo, sem nenhuma incidência nas estruturas da sociedade. Esse modo de pensar é muito antigo e sedutor, ao qual a mente e o coração do homem facilmente sucumbem. Para isso, basta recordar aquelas geniais primeiras páginas do Gênesis que narram o drama do homem quando quer construir sua vida sem Deus: se curva sobre si mesmo e desencadeia conseqüências desastrosas para si e para os demais. Isto afeta gravemente a identidade do homem e da mulher, e desfaz o fundamento da família. Afeta-os seriamente porque se propõem fazer uma coisa distinta da qual Deus pensou para eles. Esta desobediência se chama pecado, que consiste na pretensão de fazer a si mesmo a seu próprio gosto e medida. Esta desobediência adquire hoje formas culturais muito agressivas.

Então, qual é a resposta que o cristão deve dar nesse tempo? De onde constrói sua vida? Com que critérios a constrói? A Igreja nos convida a renovar a relação pessoal com Jesus Cristo, vivo em sua Palavra, na Eucaristia, na Igreja, nos irmãos e irmãs. Que o façamos como discípulos missionários de Jesus Cristo, que nos fez amigos e amigas suas, em quem nos descobrimos comunidade, povo de Deus, Corpo seu, e com quem caminhamos na esperança até a plenitude do Amor no final dos tempos.

A história humana, vivida em amizade com Jesus, não se inventa a cada passo, mas se recebe como memória viva, não como uma «lembrança do passado» para repeti-la mecanicamente, mas como um convite a construí-la em amizade fiel com Jesus Cristo e com sua Igreja, impulsionados pela maravilhosa criatividade que opera o Espírito Santo. Então, repensar nossa vocação e missão com o tema que nos presenteou o Santo Padre, «Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que n’Ele nossos povos tenha vida» é um convite a estar mais com Ele, que é nosso Caminho, nossa Verdade e nossa Vida. Porque com Ele aprendemos quem somos e qual é nossa missão. O acontecimento de Aparecida é um novo impulso que dá o Espírito à Igreja, para que se converta mais a seu Deus, se alegre redescobrindo-se amada por Ele, e se comprometa a refleti-lo com mais transparência em seus gestos e em suas palavras.

--O discípulo nasce do encontro pessoal com Jesus Cristo. Como promover o encontro verdadeiro com Cristo e oferecer instrumentos para formar discípulos?

--Dom Andrés: É uma das grandes perguntas que a Conferência de Aparecida quer responder. Hoje necessitamos encontrar respostas novas a situações novas. A V Conferência responde a uma necessidade atual de escutar o que o Espírito diz hoje à Igreja. Ela sente necessidade de escutar a seu Senhor com disposição de discípula, de fazer-se cada vez mais sua discípula, e aprender a caminhar com Ele na experiência da missão. A V Conferência reflete a necessidade que nós, pastores, sentimos de nos reunir para escutar juntos, em atitude de discípulos, ao Senhor e Mestre, que nos fez seus irmãos e amigos, para que com Ele encontremos as respostas pastorais adequadas ao tempo presente.

Todos necessitamos que este encontro com Jesus transforme nossa mente, mude nossos sentimentos para nos fazer mais parecidos a Ele e nos enviar para a missão. Nós, católicos, temos uma mensagem belíssima na pessoa de Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, como resposta aos grandes desafios do momento que nos toca viver. O assunto é como o vivemos, como o comunicamos, e até onde chega a radicalidade, coerência e transparência de nosso testemunho.

Todos necessitamos de conversão, bispos, sacerdotes, diáconos, seminaristas, religiosas e religiosos, leigas e leigos; deixar que o Espírito Santo nos reconcilie com Deus, e nos converta em verdadeiros discípulos e discípulas do Senhor Jesus Cristo. Particularmente, quis destacar a importância que tem hoje o testemunho e compromisso dos cristãos leigos na tarefa de fazer que este mundo seja mais conforme ao querer de Deus. Para eles, o mundo mais imediato é a família, o trabalho, o bairro, a educação, as estruturas sociais e econômicas, a política, a arte, a cultura, os meios de comunicação etc. Este é o campo próprio do compromisso laical.

Temos a idéia de que o leigo comprometido é aquele que desempenha com dedicação e eficiência algum ministério na comunidade. Este compromisso é muito importante e muito valioso na Igreja, mas não é a prioridade. A prioridade é trabalhar para que o Reino de Deus cresça em meio das realidades da vida, das atividades cotidianas e das estruturas da convivência humana. Os leigos e leigas são chamados vivamente, junto com todos os membros do Povo de Deus, a ser discípulos e discípulas de Jesus Cristo, para que nossos povos nele tenham vida, comprometendo-se decididamente em todas as instâncias sociais políticas e culturais, e ajudar aí com a riqueza e beleza dos valores cristãos: o valor de toda vida humana, em particular o cuidado, a promoção e a defesa da vida humana desde sua concepção até sua morte natural, igualmente da vida ameaçada por pobrezas de diverso gênero, a dignidade das pessoas, o valor da família, o compromisso solidário e a amizade social, o diálogo respeitoso com os que pensam diferente, e o cuidado com o meio ambiente. O espaço do público é o campo próprio dos cristãos e cristãs leigos.

Fonte: Catolicanet.com

Um comentário:

nadofreitas disse...
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